Oficina do futuro, um conceito moderno e sustentável

18/09/2018

 

 

 

 

Na última edição da Autop, realizada em Fortaleza (CE), em agosto, os visitantes tiveram uma novidade. Desta vez, a Oficina Verde foi apresentada em realidade virtual. Com um óculos 3D, eles puderam conferir o conceito de oficina do futuro, totalmente sustentável em respeito ao meio ambiente, principalmente atendendo à legislação ambiental. 

 

Em parceria com a SSA, Sistema Sincopeças/Assopeças (Ce), o projeto foi concebido pelo Estúdio Gama e também foi um trabalho em conjunto com o Instituto de Qualidade Automotiva (IQA), com base nos requisitos para a certificação do Selo Verde. 

 

“Nós não tínhamos espaço suficiente no estande para uma oficina desse porte, com tanto detalhamento, e a Marília Garrido, arquiteta do projeto, nos deu a ideia de transformá-la em uma oficina virtual. Ela tem essa experiência, pois já faz um trabalho de readequação junto às empresas de reparação”, afirma Ranieri Leitão, presidente do Sindipeças Brasil e Sistema Sincopeças/Assopeças (Ce).

 

O resultado, diz ele, “nós demos a oportunidade aos empresários da reparação automotiva de visualizarem como será o seu negócio no futuro, principalmente com o viés da responsabilidade ambiental, mostrando o que é necessário adaptar em sua oficina, e explicando para eles a importância de estarem inseridos nesse contexto de empresa ecologicamente correta”. 

 

Conscientização 

Nas palavras de Marília Garrido, “o principal objetivo da Oficina Verde Virtual foi conscientizar o setor sobre a importância em estar em conformidade com a legislação ambiental. E também mostrar que ser sustentável é ser eficiente, nos recursos naturais, gestão de resíduos e nos processos internos”. 

 

Virtualmente foi possível criar uma oficina com mais pontos estruturais que não seriam possíveis em um estande. Entre eles, com o uso da luz e ventilação naturais, que é a parte de eficiência energética, de forma a gerar conforto dentro da oficina e, ao mesmo tempo, redução de custos. 

Marília Garrido, arquiteta do projeto Oficina Verde

 

​Para toda a parte de gestão de resíduos, todos os detalhes foram pensados. “Como a instalação de calhas de recolhimento de água contaminada e caixas separadoras de água e óleo, que têm como destino o rerrefino. Também na parte de divisão de resíduos, três tambores para descarte de: óleo, panos sujos e peças sujas”, especifica Marília Garrido.

 

A parte de eficiência também incluiu calhas para captar água da chuva, que pode ser utilizada para a lavagem da oficina, de peças e dos banheiros. E fez parte da concepção do projeto a organização da oficina. “De forma que o funcionário seja mais produtivo e mais organizado, com as ferramentas e equipamentos mais próximos a ele”, complementa a arquiteta.  

 

Pontos de destaques

Orientadores técnicos do projeto por conta da experiência em certificação ambiental de oficinas, Sérgio Fabiano, gerente de Serviços Automotivos do Instituto da Qualidade Automotiva (IQA), diz que “neste modelo virtual, focamos em facilitar a visualização de itens obrigatórios e importantes para uma oficina que busca se adequar às legislações ambientais e necessidades do mercado”. 

 

Ele explica o quanto é importante a visualização de locais, equipamentos ou processos para o entendimento do empresário da reparação. “Na maioria das vezes, ele tem a intenção de evoluir e implementar processos de controle ambiental, mas não consegue identificar visualmente como isto seria e ficaria em sua oficina. Como por exemplo, o local de descarte de óleo usado com a área de contenção contra vazamentos”.

 

No desenvolvimento do projeto virtual, as áreas de descarte de material e aproveitamento da luz natural foram pontos focais. “A apresentação contempla as necessidades ambientais em todos os aspectos desde a área externa, onde orientamos utilizar pisos intertravados no estacionamento para a penetração da água de chuva no solo”, menciona Fabiano, destacando outros pontos importantes para transformar o seu negócio em uma Oficina Verde:

 

- Obtenção das licenças obrigatórias para o funcionamento do negócio;

 

- Captação da água de chuva em reservatório específico para auxiliar no consumo de locais que não necessitam de água tratada;

 

- Instalação de telhado adequado para facilitar a ventilação e a iluminação natural;

 

- Correta armazenagem de materiais recicláveis e materiais contaminados, que necessitam de local adequado conforme legislação;

 

- Instalação e utilização de caixa separadora água-óleo e canaletas de coleta de água contaminada com resíduos, 

 

- Manutenção correta e armazenamento de ferramentas e equipamentos na oficina. 

 

Na opinião de Sérgio Fabiano, “a principal mudança é a conscientização do empresário da reparação automotiva. Muitos dos processos de controle ambiental, como armazenamento e descarte adequado de alguns materiais, não possuem custo. Demandam somente a vontade de fazer para a realização efetiva da ação pensando no futuro do planeta”. 

Sérgio Fabiano, gerente de Serviços Automotivos do IQA

 

 

Iniciativas

Antonio Fiola, presidente do Sindirepa-SP e Sindirepa Nacional, comenta que o que foi apresentado na Autop pelo IQA é uma proposta avançada de certificação do Selo Verde IQA. “Bem interessante, com processos adotados e os equipamentos utilizados em layout produtivo adequado ao negócio”.

 

Para ele, primeiramente, as oficinas precisam cumprir a legislação. “A questão ambiental, além de ter apelo junto ao consumidor, envolve questões relacionadas à legislação que está cada vez mais rigorosa com a destinação correta de resíduos nas oficinas. Trata-se de uma necessidade, além de multas pesadas e, dependendo do caso, pode implicar reclusão de um a três anos”.

 

E para chegar ao Selo Verde, Fiola diz que “é importante implementar o PIQ, Programa de Incentivo à Qualidade, criado pelo IQA, em parceria com o Sindirepa Nacional, que desenvolveu, com exclusividade, processo de certificação de oficinas independentes com objetivo de promover a qualidade, competitividade e melhoria de resultados”.    

Antonio Fiola, presidente do Sindirepa-SP e Sindirepa Nacional

 

O programa consiste em implantação de processos, treinamento de funcionários e gestão para controle de gastos e redução de custos. “O primeiro passo é um levantamento da situação da empresa para depois preparar o programa de qualificação. E o trabalho também prevê a retenção dos profissionais capacitados, garantindo assim a qualidade dos serviços e evitando despesas com treinamento de novos funcionários”. 

 

Para obter a qualificação, a empresa é avaliada em 63 quesitos ao longo de 12 meses. Já a certificação, que é mais completa, leva 24 meses e analisa 133 itens. “Várias estão aderindo ao PIQ. Temos oficinas muito avançadas neste processo e outras que ainda precisam avançar muito nesta questão de gestão ambiental. É importante destacar que para ter processos ambientais é necessário começar pela gestão. Uma coisa leva à outra”. 

 

Oficina Legal

Em Pernambuco, o presidente do Sindirepa, Pedro Paulo Medeiros de Moraes, também está engajado em um projeto que prima pela sustentabilidade, a Oficina Legal, que tem vários parceiros nessa missão: Sebrae, Jogue Limpo, ABNT, Zeppine e o Senai.  

 

“O projeto da Oficina Legal se encerra no Selo Verde. Mas antes é feito um trabalho interno na oficina, do ponto de vista de gestão com qualidade e excelência”. Trabalho que inclui a medicina do trabalho bem aplicada, direitos e cuidados com profissionais, e capacitação da equipe.

 

O piloto do projeto Oficina Legal conta com 24 oficinas e terá mais 40, localizadas na Grande Recife, ainda nesse semestre. “Elas já foram aprovadas pelo Sebratec, o nosso grande parceiro nesse projeto, que tem nos ajudado a transformar a reparação automotiva em um universo muito melhor para todos”. O Sebraetec, Serviços em Inovação e Tecnologia, é um programa nacional do Sistema Sebrae. 

 

Também para o projeto, o Sindirepa-PE firmou parcerias com a ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas, com condições especiais aos associados, e com a Zeppine, fornecedora de caixas separadoras. “O maior agente agressor é o óleo lubrificante misturado com a água. Quando tem a separação, 80% dos problemas da oficina são resolvidos”. 

 

E com o Jogue Limpo, sistema de logística reversa de embalagens plásticas de lubrificantes pós-consumo, que tem disponibilizado pontos de coleta na Grande Recife. As oficinas se cadastram pelo site do Jogue Limpo, recebem sacos de coletas e a documentação do correto destino das embalagens. 

 

Outra iniciativa é a criação de uma cartilha com dicas para as empresas da reparação automotiva conseguirem as licenças ambientais. Ela será distribuída para as oficinas, independentemente de fazerem parte do projeto. “O mais importante é a oficina ter boas práticas ambientais e realmente a preocupação que todas as suas ações não agridam o meio ambiente”. 

Pedro Paulo Medeiros de Moraes, do Sindirepa-PE

 

Moraes defende que é preciso preparar as oficinas para que o público externo entenda que elas realmente têm boas práticas com o meio ambiente e que se preocupam com atitudes corretas. “Isso é reconhecido pelo cliente. Não adianta dizer que é ambientalmente correta, defender a sustentabilidade, se as pessoas não reconhecerem isso quando chegam à oficina”. 

 

Comprometimento 

No Paraná, Wilson Bill, presidente do Sindirepa-PR, informa que no Estado a opção foi implantar o PGRS (Programa de Gerenciamento de Resíduos). “Houve uma adesão satisfatória, porém, difícil de conscientizar a grande maioria dos empresários. O momento que atravessamos não é propício para convencer os empresários a investirem”. 

 

Ele cita que na região de Ponta Grossa há um case de sucesso, com a certificação do Selo Verde. E que o primeiro passo para a oficina se tornar ambientalmente correta é a organização e limpeza. “As empresas mudaram muito, principalmente com a inserção no mercado das esposas e filhas dos proprietários, e as exigências ambientais para a renovação dos alvarás. As oficinas tiveram que se adequar”. 

 

Em sua opinião, “como entidades representativas empresariais é preciso ter a percepção do que é possível os empresários assumirem e o que é obrigação dos estados e municípios fazerem. É muito fácil repassar responsabilidades e ditar regras para os outros cumprirem, esta é uma das missões dos Sindirepas, defender os interesses do setor de reparação”.

Wilson Bill, presidente do Sindirepa-PR

 

No contexto da Oficina Verde Virtual, apresentada na Autop, Bill analisa que a  empresa que consegue implantar o programa (Selo Verde), tem a satisfação de ter uma oficina diferenciada no mercado, ambientalmente correta e atingir um público diferenciado. “Porém, tudo isto tem um custo, para se destacar no setor e manter os procedimentos exigidos na certificação”. 

 

Segundo ele, “o difícil não é implementar um programa na empresa, o difícil é manter o espírito de envolvimento e comprometimento da equipe de colaboradores. Ao se decidir por esta opção, deve-se fazer um programa de conscientização da equipe para que isso se torne rotina permanente da empresa”.

 

Responsabilidades

Consultor Especialista em Reparação Automotiva, José Carlos Alquati, avalia que a situação ainda está longe do ideal. “Há uma legislação forte que trata das questões ambientais, mas o seu cumprimento está longe de ser uma realidade. Está se agravando o despejo de graxas e líquidos graxos nos afluentes, bem como o descarte inadequado de embalagens e filtros utilizados”. 

 

Para ele, deveria haver um incentivo do governo. “Quem deveria ter uma preocupação maior são os órgãos públicos e os governos municipais, e não entregar para o cidadão essa responsabilidade no momento em que ele não tem muitas vezes a orientação correta e depois é punido com uma autuação por um dano ambiental”.

 

Alquati faz um paralelo com o sistema europeu. “As oficinas têm contêineres padrão e os órgãos públicos fazem a coleta, ou se é feita por uma empresa privatizada, ela é credenciada por um órgão público. Pelo sistema europeu, é obrigação do governo ter a certeza de que o destino dado é o adequado”. 

 

No Brasil, ele tem acompanhado os movimentos. “Nos seminários dos Sindirepas, um dos temas é a regulamentação das oficinas quanto à responsabilidade ambiental. Porém, quando se fala nas obrigações, muitos dizem que não têm como atendê-las por causa dos custos. Há profissionais e instituições querendo transformar esse segmento em bem limpo mesmo, mas ainda há muito a fazer”.

 

Visibilidade

Alexandre Costa, diretor da Alpha Consultoria, lembra que diariamente a oficina ou o centro automotivo lida com resíduos poluentes derivados de petróleo como lubrificantes, graxas e pneus, ácidos e chumbo provenientes das baterias, peças metálicas e vários tipos de fluidos, além dos próprios gases emitidos pelos veículos durante testes e diagnóstico.

 

“Porém, manusear tais agentes não torna uma oficina necessariamente um vilão ambiental. O problema reside justamente na falta de consciência que ainda habita em um grande número de empresários que, por opção ou desconhecimento, não realiza o correto descarte de cada um desses agentes”. 

 

Em sua opinião, falta, no geral, um entendimento do tempo que resíduos descartados como lixo comum passam na natureza. “O tempo de degradação de alguns materiais simples é extremamente alto, como plásticos e nylon que duram até 40 anos. Já os vidros podem resistir por mais de 10 mil anos, enquanto que pneus têm prazo indeterminado”. 

 

Com essa conscientização, Costa diz que que torna-se imprescindível dar o correto destino a esses materiais de modo que possam ser reciclados por empresas especializadas e não jogados no meio ambiente. “Não é fácil cumprir com essas rotinas, mas todo esse trabalho é compensado, pois, além de reduzir o impacto ambiental, os clientes veem com bons olhos as empresas que possuem ações sustentáveis, e isso pode se tornar um grande diferencial”. 

 

Outro ponto importante, destaca ele: “ao atender as regulamentações ambientais e seguir com os corretos procedimentos de descartes, o empresário está evitando um custo adicional, muitas vezes não esperado, que são as multas pelo descumprimento das normas. E, em alguns casos, as notificações mais severas podem impedir o funcionamento do estabelecimento.

EXEMPLO A SEGUIR

Há um bom tempo, Pedro Scopino, da Oficina Scopino, investe em boas práticas, e mais ainda depois que sua oficina passou por uma reforma. E ele antecipa: “não é fácil fazer as coisas como fazemos, deixar a oficina ambientalmente correta, pois nem sempre é barato”. Mas o retorno é notório.

 

Não apenas na redução de custos como das contas de consumo (água e luz),  mas na percepção dos clientes. “O segredo é saber mostrar essas ações. Na  recepção da oficina, eu tenho três quadros: um com o alvará de funcionamento, outro com o AVCB (laudo de vistoria do Corpo de Bombeiros) e um com a nota fiscal de destino de resíduos, que é trocada mensalmente. Se o cliente questiona preço, eu mostro que eu vendo valor”. 

 

Confira a seguir as principais ações adotadas na Oficina Scopino:

 

Telhas sanduíches: Térmicas e brancas, elas aquecem menos e proporcionam uma boa troca térmica no ambiente, além do aspecto limpeza. 

 

Três fileiras de telhas translúcidas: Permitem a passagem de luz. Com mais claridade, a oficina consome menos energia elétrica.  

 

Calhas canalizadas para duas caixas d’água de cinco mil litros cada: A água é utilizada para a lavagem de peças e da oficina, por exemplo. Com a economia, diz Scopino: “nós somos em 11 pessoas na oficina, pelo menos 60% tomam banho na empresa e nós pagamos a taxa mínima de água”. 

 

Descarte de reciclados: Em parceria com a prefeitura de São Paulo, há 15 anos a oficina dispõe de um contêiner para o descarte de reciclados sem contaminação de óleo, que atende também a comunidade. “Por semana, são cerca de 80 kg descartados, o que, multiplicado por 15 anos, significa 57 toneladas”. O contêiner virou um ponto de coleta para a comunidade, um incentivo para a prática da reciclagem. 

 

Resíduos contaminados: Parceria com a Resi Solution que coleta todos os resíduos contaminados, como por exemplo, filtros de óleo. “Não é barato, mas é ambientalmente correto, e eu coloco isso no meu custo fixo”. 

 

Descarte de óleo: A oficina conta com uma caixa subterrânea. A cada 50 ou 60 dias, o que dá, em média, 200 litros de óleo, a coleta é feita por um caminhão autorizado.

 

Óleo de cozinha: Parceria com uma entidade que faz a coleta do óleo de cozinha. Detalhe: na oficina não há fogão, mas sim micro-ondas. Esse óleo é entregue pela comunidade local e pela equipe de Scopino. Em troca, a entidade retorna com sabão. 

Pedro Scopino, proprietário da da Oficina Scopino

 

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