Mulheres na reparação. Elas são muitas, mas o preconceito não diminui

21/03/2018

 

Histórias de profissionais de todo o País que fazem a diferença em um universo em que ainda predomina o público masculino

 

Na cadeia produtiva do setor automotivo predominam trabalhadores do sexo masculino, representando 83% do total. Quando comparado a 2013, houve uma redução de dois pontos percentuais e, consequentemente, aumentou a participação das mulheres. Os dados são da pesquisa “Presença Feminina no Setor Automotivo”, do portal Automotive Business, que teve a participação de 127 entrevistados da área de Recursos Humanos das organizações. 

 

Especificamente nas oficinas, as mulheres também têm conquistado mais espaço, seja com a mão na massa e fazendo os reparos nos veículos ou cuidando das áreas administrativa e financeira. Nessa matéria, confira as histórias das que fazem a diferença no dia a dia desse negócio. 

 

 

Fabiana Guadani - OFICINA MECÂNCA Alemão o Bom

 

Fabiana começou a frequentar a oficina de seu pai, em São Paulo (SP), quando tinha em torno de 12 anos de idade. “Eu saía da escola e ia direto para lá, e fui pegando gosto pela coisa. Depois comecei a participar de cursos para me especializar e com 15 anos já fazia reparos. Agora, como meu pai se aposentou, sou eu quem cuida da oficina ao lado do meu irmão”. 

 

Especialização – “Eu fiz vários cursos de mecânica e somente no início ajudei meu pai na parte administrativa, mas me apaixonei mesmo foi pela mecânica. Sempre vou a palestras e faço cursos online, e o meu irmão que trabalha comigo está sempre antenado para saber onde haverá cursos, e também estudarmos juntos quando um novo carro é lançado”. 

 

Preconceito – “Como a oficina era do meu pai, foi mais fácil superar preconceitos. As pessoas se acostumaram comigo, mas chegou a acontecer de o cliente dizer que iria esperar pelo meu pai ou que voltaria outro dia. Como eu já estou aqui há muito tempo, fui conquistando os clientes com o meu trabalho e hoje em dia acontece o contrário: há clientes que dizem que só vêm aqui porque eu entendo melhor o que é necessário fazer no carro”.

 

Retorno – “A mulher é mais caprichosa, mais atenciosa, e sabe explicar melhor para o cliente o que é preciso ser feito, qual é o serviço necessário no veículo. Eu tenho esse retorno deles, o que mostra que eles gostam bastante”. 

 

 

 

Agda Oliver da Meu Mecânico

 

Incentivada por ter sido enganada pelo mecânico que consertava seu carro, Agda decidiu aprender sobre mecânica automotiva e decidiu abrir a sua própria oficina, em 2010, em Brasília (DF). “O desafio foi montar uma oficina totalmente voltada para as mulheres e ter a aceitação do mercado, tanto do público feminino como do masculino, além da concorrência desleal que é demais”. 

 

Hoje, 70% dos seus clientes são mulheres. “E temos muitos clientes masculinos que vêm até aqui para verificar como é a oficina para depois autorizar as suas esposas e filhas a trazerem os carros. O forte da oficina é que eu tenho uma clientela muito fiel”, revela.

 

Fidelização – Ela conta que o trabalho de fidelização consiste em estar sempre junto aos clientes. “Eu faço de tudo para que o cliente não se esqueça da gente, mando dicas sobre como cuidar do carro, promoções e convido-o para as palestras que realizo na oficina”.

 

E acrescenta: “oficina mecânica não é um negócio como padaria que você vai todos os dias, mas, em média, duas vezes ao ano, a não ser que aconteça algum problema extra. Hoje nós temos uma mecânica mulher e três homens, até por conta do mercado”. 

 

Atualização – “Nós participamos de pelo menos um curso por ano, assistimos a muitas palestras de fornecedores para saber o que há de inovação no mercado e as novidades sobre peças de aplicação, o que acaba nos aproximando de fornecedores e fabricantes. A internet também facilitou muito o nosso dia a dia”. 

Diferencial – Segundo ela, as mulheres são mais cuidadosas. “Nós temos uma preocupação maior não apenas com a limpeza, mas em não sujar o carro, e em passar um orçamento apresentável junto a todas as especificações do serviço e a forma de pagamento. Essa transparência facilita bastante a aprovação do serviço. Também somos mais

cuidadosas com as ferramentas”, compara em relação aos homens. 

 

Sandra Helena Nalli, da Escola do Mecânico

 

Como menor aprendiz, Sandra foi trabalhar em oficina aos 14 anos de idade e com 20 anos já consertava carros. Depois ela teve a oportunidade para ser a responsável pela mecânica, cargo que não foi bem visto inicialmente, mas depois aceito. Sempre se especializando, ela chegou ao cargo de chefe de oficina.  

 

“Nessa empresa, havia um centro de treinamento tecnológico para capacitação dos mecânicos. Eu participei de treinamentos e também aprendi na prática com os mais experientes. Quando assumi a gerência da oficina, em 2011, eu precisava contratar mecânicos especializados, o que não conseguia pela indisponibilidade de mão de obra”.

 

À época, Sandra dava aulas na Fundação Casa, em Campinas (SP), e teve a ideia de treinar e formar os meninos residentes para poder contratá-los. “Montei um projeto social e rapidamente começaram a aparecer outras pessoas interessadas em capacitação”. Nascia assim a Escola do Mecânico.  

 

Primeiros passos – O primeiro deles foi pesquisar se realmente havia essa lacuna no mercado. “Eu identifiquei que a falta de mão de obra especializada era absurda, o que me impulsionou a montar a Escola do Mecânico. No início, eu mesmo realizava os treinamentos, depois fui contratando gente para me ajudar”, recorda-se.

 

Franquia – O negócio deu tão certo que, em 2014, Sandra partiu para o modelo de franquia. Hoje são duas unidades próprias, também em Campinas (SP), uma delas é um centro de treinamento para todo o País, e 13 unidades franqueadas. “Muitas mulheres participam dos treinamentos, mas predomina o público masculino”, compara. 

 

Mas isso está mudando. “Antes, era uma ou duas meninas que nos procuravam, hoje já conseguimos montar turmas só para elas. Ainda lancei o High Tech Mulheres Também Pode, que eu mesma gravava vídeos chamando-as para fazerem parte deste mundo”, finaliza. 

 

 

Maria Izabel de Andrade Scopino, da Auto Mecânica Scopino

 

De licença maternidade e em casa cuidando do bebê, Maria Izabel começou a frequentar a oficina do seu marido e deixou para trás um emprego na área de vendas. “Eu percebi que a oficina precisava ser organizada, comecei a me envolver, a gostar, e estou aqui até hoje. Isso faz 15 anos. Acho que já vem da mulher essa parte de organização”. Em primeiro lugar, ela se dedicou à parte do cadastro, depois RH, dos funcionários e respectivos uniformes, e assim em diante. “Fomos mudando muitas coisas que precisavam na parte administrativa. O (Pedro) Scopino tinha tarefas demais, além da parte técnica, ele dava aulas à noite e não tinha como ele cuidar desta parte”, revela.

 

Mais mulheres – Hoje, Maria Izabel está à frente do financeiro, a Nice, do RH, e há também uma mulher mecânica e uma na recepção. “40% da equipe da oficina é feminina. Eu fui a primeira e depois vi a necessidade de ter uma mulher na recepção para atender o público feminino. Percebemos que o número de mulheres que passou a frequentar a oficina aumentou muito”. 

 

Produtividade – Outro ganho mencionado por Maria Izabel é o de produtividade. “A oficina ficou muito mais organizada e limpa, o que também incentivou os colaboradores a seguirem o mesmo exemplo. Nós estamos sempre melhorando e digo que 80% já melhorou muito. Eu ainda participo de cursos no Sebrae, pois é preciso estar sempre atualizada”, conclui. 

 

 

Silvana Figueiredo, da Só Freios

 

Técnica em contabilidade, Silvana trabalhava no Grupo Fenícia, em Jundiaí (SP), e o seu marido tinha muita experiência ao trabalhar na oficina mecânica do seu tio. Eles perceberam que um novo conceito de mecânicas era implementado na cidade, o de oficinas especializadas, e decidiram levar esse mesmo conceito para Botucatu (SP), o que lá seria uma novidade. 

 

Assim nascia, em 1988, a Só Freios. “Alugamos um prédio comercial e a nossa residência. Nós tínhamos um aporte de capital para seis meses, prazo para que o negócio fosse viabilizado”. Silvana cuidava da parte administrativa, de compras, arquivo, estoque e vendas. O marido, da parte técnica.

 

Conquista – Para atrair a clientela, a tática foi a divulgação em várias partes da cidade, por meio de panfletos e jornais. “Ao mesmo tempo, nós fazíamos pesquisa de opinião para saber das pessoas se o nosso negócio era bom para a cidade. No primeiro mês, atendemos 50 carros, depois o negócio foi progredindo e fomos fidelizando os clientes”.

 

Atualização – Além de participar de cursos, Silvana é a presidente, reeleita recentemente, do NAC, Núcleo de Auto Mecânicas da Cuesta. E tem uma atuação bastante ativa na cidade e na região, incluindo junto ao Sebrae e à prefeitura local. “O que nós queremos nesse momento é implementar a aplicação da lei na ocasião de concessão do alvará. Muitas oficinas foram abertas na região, o que está desnivelando o setor”. 

Um dos pilares do NAC é ajudar as empresas do setor de reparação automotiva na formalização, capacitação, segurança no trabalho, descarte correto dos resíduos e gestão empresarial.

 

 

 

 

Janaína Walzburger, de Joinville (SC)

 

 Especializada em mecânica de motos, Janaína começou nessa área ajudando o seu irmão. E com um namorado que teve, comprou uma moto e a diversão era fazer a revisão dela. “Foi assim que eu descobri que essa era a minha paixão. Pesquisei muito sobre mecânica de motos e fui me especializando”.

 

Oportunidade – “Cada vez mais procurei saber, desmontando moto, estudando e pesquisando sobre os seus componentes, até que surgiu a oportunidade de trabalhar com um colega, na parte de customização e revisão de motor, desde a revisão básica até transformação, como a pintura”. 

 

Atualização – “Assim como os veículos, as primeiras motos não eram dotadas de tanta tecnologia. Elas eram puramente mecânicas. Isso mudou, hoje elas têm injeção eletrônica e controles de estabilidade e velocidade, por exemplo. Cada marca tem as suas características, é preciso estar sempre atualizado. E diferentemente do carro, moto não tem a proteção da lataria, a sua manutenção tem que ser muito criteriosa, pois pode causar um acidente grave”.

 

Oferta – “Atualmente há bastante cursos de atualização, até mesmo online, e eu procuro ler os manuais técnicos e acompanhar os canais online. Neles, há muito compartilhamento de informações e experiências com os colegas de profissão, o que ajuda bastante”.

 

Desafios – “Mesmo sabendo que cada vez mais as mulheres estão presentes em todos os setores, inclusive nas oficinas mecânicas, as pessoas, principalmente os homens, ainda olham para nós como incapazes e desconfiam da qualidade do nosso serviço”. 

 

Segundo ela, “há muita falta de respeito, mas a gente não desiste, já pensei em largar essa área, mas ela é a minha paixão. Eu pretendo me especializar cada vez mais e continuar a faculdade de Engenharia Mecânica. Quando nos tratamos com consideração, as pessoas entendem que também devem nos respeitar”, finaliza. 

 

 

 

Rachel Jaqueline, de São José dos Campos (SP)

 

A partir dos 7 anos de idade, Rachel sempre fazia algo na oficina do seu pai, como por exemplo, lavar peças. Com 15 anos, começou a ter seus próprios clientes. “Foi assim que iniciei a minha oficina, com o conhecimento adquirido do meu pai, que era mecânico de caminhões e de carros pequenos”. 

 

Ela se especializou em automóvel e nunca pensou em ter outra profissão. “Estou sempre buscando novos conhecimentos e a internet facilitou bastante. Eu participo de muitos cursos online”. E Rachel também realiza um trabalho voluntário em uma escola local, dando aulas gratuitas de revisão preventiva.

Voluntário – “Há 14 anos eu faço esse trabalho voluntário, em média, para uma turma de 15 alunos. Também há a presença de mulheres nesses treinamentos que querem conhecer sobre mecânica, principalmente com receio de o carro quebrar na rua e elas não saberem o que fazer”. 

 

Retorno – Iniciativa que lhe trouxe retorno para a sua oficina. “Foi com esse trabalho voluntário que eu consegui ampliar o número de clientes, levo o meu conhecimento para a sala de aula e conquisto a confiança das pessoas. Também já sofri preconceito por ser uma mecânica mulher, mas nunca liguei para isso, até porque eu fui criada no meio de homens”. 

 

Em casa – Depois de alugar um ponto comercial por vinte anos, com a crise do País, Rachel decidiu montar a sua oficina em casa. “Eu tenho um bom espaço para sete carros, todos os equipamentos e ferramentas necessários, e sempre tenho clientes, alguns vieram do meu pai, que já faleceu, e também muitas mulheres me procuram. É um ramo que a gente não fica sem trabalho. Sempre tem uma manutenção ou uma revisão a ser feita no carro”.

 

 

 

Dhayanna Batista, de Joinville (SC)

 

“Quando criança, meu sonho era ser cardiologista, por conta da minha família ter histórico de problemas cardíacos. Quando completei 9 anos, meu pai comprou uma moto, e como na época eu era filha única, sempre que ele saia de casa, ia com ele. Meu pai tinha o sonho de ser mecânico, mas não teve oportunidade. Então, cada carro, moto ou caminhão que passava por nós na rua ele dizia: olha filha, tal carro, tal caminhão, etc.”, lembra.

 

Ela diz que quando se deu conta estava colecionando cards dos velozes e furiosos, cortando fotosde carros de revistas e colando na parede do quarto. “No momento em que fui para o ensino médio, tive a oportunidade de fazer pelo Senai o curso de Aprendizagem Industrial em Mecânica de Automóveis e Caminhões. Quando  terminei o 3° ano, cursei Engenharia Mecânica. Hoje eu realizo e vivo o sonho do meu pai, que acabou por se tornar o meu também”.

 

Preconceito - Dhayanna conta que com 17 anos entrou como auxiliar de mecânica em uma oficina, que na época era muito conhecida em Joinville (SC), mas que passou pela experiência de ser preterida profissionalmente. “Cheguei a trabalhar durante 30 dias em uma oficina que o dono me dispensou dizendo que o movimento estava fraco e que precisava cortar custos. Quando fui receber já tinha outro rapaz no meu lugar. Ainda hoje, mesmo depois de alguns anos na área, sofro bastante preconceito”.

 

No entanto, para superar o preconceito que impera em algumas pessoas e mais forte em certas regiões do País, a reparadora teve apoio dos seus pais e marido, que nunca a deixaram desistir. “Meu 1° patrão foi que me ensinou tudo o que sei, vou levá-lo sempre na minha memória e todos os outros que me deram uma oportunidade, em especial, o pessoal da VS Mecatrônica, que além de patrões foram como meus pais”, afirma. 

Conselho - Como dica, “não desista nunca, apesar das dificuldades, siga teu coração, porque tudo é um processo, o que você plantar hoje irá colher amanhã, seja humilde, aceite críticas construtivas, tenha foco, seja honesta, acima de tudo. Espero sinceramente que um dia possamos ser mais reconhecidas pelo o que fazemos, que esse tabu seja definitivamente quebrado, porque somos todas muito capazes”.

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