OS REPARADORES - DIANTE DO FUTURO DA MOBILIDADE

O novo presidente da SAE fala sobre a “reinvenção” do setor automotivo nos próximos anos e como todas essas mudanças podem afetar as oficinas

 

O engenheiro mecânico Mauro Correia, presidente do grupo Caoa, assumiu recentemente o comando da SAE Brasil (Sociedade de Engenheiros da Mobilidade), cargo que ocupará até o final de 2018. Terá pela frente uma série de desafios, a começar pelo novo posicionamento da indústria automobilística num mundo em grande transformação.


Novas gerações com outros valores, veículos perdendo o status, os avanços da telemática e as formas digitais de se fazer negócios. As mudanças serão muitas e profundas. Ao longo da entrevista, Correia destacou que os reparadores seguirão tendo um papel fundamental no futuro, mas será preciso investir e estudar muito para não ficar para trás. 


Reparação Automotiva - Os veículos estão cada vez mais sofisticados. De que forma isso pode impactar o trabalho nas oficinas?
Mauro Correia - A tecnologia vai crescer muito mais. Para a minha geração, o veículo sempre foi um objeto de desejo, para os jovens de hoje é apenas um meio de locomoção. Para atendê-los, os novos conceitos de carros autônomos e compartilhamento de veículos vieram para ficar e trouxeram outra importante mudança: a eletrificação da frota. Como consequência, teremos muito mais eletrônica embarcada e com um nível de sofisticação muito elevado. 

 

RA - É uma mudança radical na forma como vemos o automóvel...
MC - Sim. Em poucos anos, os usuários dos veículos buscarão muito mais uma forma eficiente para se deslocar do que o prazer de dirigir. Nesse contexto, o uso de motores elétricos controlados por avançados sistemas eletrônicos faz muito mais sentido do que a atual tecnologia dos propulsores de ciclo Otto ou Diesel. Essa realidade acabará chegando às oficinas em poucos anos, e os reparadores precisarão estar preparados. 

 

RA - De que forma?
MC - Hoje, a equipe técnica de uma concessionária já precisa de conhecimentos avançados de eletrônica para fazer o seu trabalho da melhor forma. Sem o apoio de uma série de equipamentos de diagnose é impossível consertar determinados modelos. Por tudo isso, eu acredito que o reparador do futuro vai sujar muito menos a mão de graxa e vai digitar muito mais para identificar os reais problemas dos veículos.

 

RA - Então uma formação apenas em mecânica não será o suficiente?
MC - Quem pretende se destacar no futuro terá de procurar, o quanto antes, uma sólida formação em elétrica e eletrônica, além dos conhecimentos de mecânica. 

 

RA - Como a SAE Brasil avalia o desenvolvimento tecnológico dos veículos nacionais?
MC - Estão muito próximos do que é produzido ao redor do mundo. As nossas plataformas são globais, salvo raras exceções. As montadoras não têm condições de fazer investimentos monstruosos em engenharia para ter carros diferentes de um país para o outro. Atualmente, vários modelos nacionais têm direção elétrica, dupla embreagem, motor turbo e injeção direta. Não há uma grande distância entre nós e os outros mercados.

 

RA - Mas a relação entre tecnologia e custo não é muito boa no Brasil. Isso não atrapalha a evolução da frota?
MC - O custo impede uma popularização maior da tecnologia, isso é verdade. Hoje, por exemplo, não é todo mundo que consegue comprar um carro nacional com turbo e injeção direta. Mas por trás disso está o famoso “Custo Brasil”, e, a partir desse ponto, a discussão é política. Temos grandes adicionais sobre toda a cadeia produtiva, o que faz com que o veículo brasileiro se torne bem mais caro para o consumidor e o impeça de conhecer muitos avanços tecnológicos, mesmo quando estão disponíveis. 

 

RA - A SAE Brasil  faz estudos sobre manutenção automotiva?
MC - No desenvolvimento dos produtos, as montadoras pensam desde o início na reparabilidade. A engenharia sempre avalia como trocar as peças do veículo de uma forma mais rápida e econômica. Para dar um exemplo, em muitos carros atuais os faróis contam com presilhas que tendem a quebrar e jogar a peça para trás em pequenas colisões. Quando o acidente não danifica a lente, é preciso apenas substituir esses suportes.

 

RA - As montadoras também estão empenhadas em reduzir o número de revisões. Até onde isso pode evoluir?
MC - Essa é uma busca constante. Ao vender um veículo, a indústria automobilística procura entregar o melhor em estilo, desempenho, conforto e confiabilidade. Ao distanciar as manutenções, o carro fica com o consumidor por mais tempo e gera uma despesa menor. Não podemos pensar apenas no valor de aquisição, hoje o mais importante é o custo da mobilidade ao longo de todo o ciclo de utilização do automóvel. 

 

RA - Um dia o carro será descartável como muitos eletrodomésticos?
MC - Acho que essa realidade ainda está bem distante. Não é possível comparar um veículo com um micro-ondas ou celular. Os valores agregados e a vida útil dos produtos são muito diferentes. 

 

RA - Mas algumas manutenções já entraram para a história... 
MC - É verdade. Um motor flex moderno dura mais de 300.000 km facilmente, apenas com a manutenção básica. Para muitos proprietários, essa quilometragem pode corresponder a algumas décadas de uso. E, mesmo que esse propulsor precise de um reparo profundo no futuro, será muito mais fácil e barato trocá-lo por outro. 

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10/12/2019

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